A crescente busca por abordagens médicas mais integradas e preventivas tem ampliado o espaço da nutrologia no tratamento da obesidade e de distúrbios metabólicos. Em um cenário marcado pela disseminação de soluções rápidas nas redes sociais, a especialidade surge como contraponto ao propor investigação aprofundada do das causas e estratégias personalizadas de cuidado.
Para a médica nutróloga Dra. Eliane Cervantes, compreender o organismo como um todo é o primeiro passo para resultados consistentes e duradouros.
A escolha pela área nasceu de uma inquietação profissional diante de tratamentos focados apenas no controle imediato dos sintomas. Segundo a médica, a simples prescrição de medicamentos nunca foi suficiente para responder às questões que a motivavam na prática clínica.
“Sempre me interessei mais pela saúde e menos pelas doenças. Me incomoda tratar uma condição sem saber a causa”, afirma.
Para ela, a nutrologia permite investigar fatores metabólicos, nutricionais e comportamentais que ajudam a explicar o desenvolvimento das doenças e ampliam a capacidade de intervenção preventiva.
A trajetória pessoal também influenciou sua linha de atuação. A vivência com a obesidade trouxe uma perspectiva mais próxima da realidade enfrentada por muitos pacientes, marcada por tentativas frustradas e abordagens pouco esclarecedoras.
“Sempre lutei com o peso e percebia que a medicina só entregava medicamentos, sem explicar o porquê e sem soluções reais”, relata.
Essa experiência fortaleceu sua defesa de uma medicina baseada em diagnóstico detalhado e acompanhamento contínuo, com foco na raiz do problema e não apenas na consequência.
Um dos principais desafios enfrentados atualmente no consultório, segundo a médica nutróloga, é combater mitos relacionados ao emagrecimento. A promessa de resultados rápidos e permanentes, amplamente divulgada em ambientes digitais, contribui para frustrações recorrentes e expectativas irreais.
“Um dos maiores mitos é acreditar que vou emagrecer e nunca mais engordar, como se existissem soluções milagrosas e definitivas. A obesidade é multifatorial e cada pessoa tem causas particulares”, explica.
Por isso, a definição de protocolos envolve avaliação detalhada do metabolismo, histórico clínico, fatores emocionais e hábitos de vida antes de qualquer decisão terapêutica.
O uso de medicamentos pode fazer parte da estratégia, especialmente em casos de repetidas tentativas sem sucesso. A especialista ressalta que a prescrição é integrada a mudanças estruturais no estilo de vida e à recuperação metabólica.
“Acredito no início do tratamento com medicação em muitos casos, porque preciso entregar algo eficiente e seguro. Mas isso acontece junto à recuperação do metabolismo, dos hábitos e do estilo de vida”, pontua.
Ao mesmo tempo, ela alerta para a banalização desses recursos nas redes sociais, destacando que o uso sem acompanhamento médico pode trazer riscos.
Outro ponto de atenção é a adoção de orientações generalizadas de saúde. Embora muitas recomendações sejam consideradas saudáveis, a aplicação indiscriminada pode não ser adequada para todos os perfis metabólicos.
“Existem coisas saudáveis que são boas para uns e ruins para outros. Frutas, por exemplo, podem não ser indicadas em determinadas situações. Alguns alimentos saudáveis também podem ser muito calóricos e prejudicar o emagrecimento”, explica.
Em relação ao futuro da medicina metabólica, a Dra Eliane destaca o avanço de terapias baseadas em peptídeos como uma das principais tendências. Essas substâncias atuam na sinalização celular e podem contribuir para restaurar funções fisiológicas comprometidas.
“Os peptídeos serão a revolução da doença e da saúde, inclusive no envelhecimento. Eles sinalizam ao corpo como deve trabalhar e ajudam a restaurar processos metabólicos”, afirma, citando a tirzepatida como exemplo já presente na prática clínica.
Nos últimos anos, ela também observou mudanças no perfil dos pacientes que procuram atendimento, com aumento de casos de reganho de peso, dores crônicas, queda de cabelo e níveis elevados de estresse, fatores que reforçam a necessidade de uma abordagem ampla e humanizada.
“Meu método respeita a individualidade de cada paciente, priorizando o resgate e o equilíbrio do metabolismo”, destaca.
Ao falar sobre o legado que deseja deixar na área da saúde, a médica nutróloga reforça que o vínculo humano é parte essencial do cuidado clínico.
“Quero mostrar que existe o médico que realmente se importa, que chora e vibra junto com o paciente. Uma medicina que enxerga o corpo humano como um todo e não partes separadas”, conclui.
















